vieiracalado-poesia.blogspot.com

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sábado, 19 de novembro de 2016

MEMÓRIA DO TEU CORPO

A memória do teu corpo é a paisagem dum tumulto
um cântico absorto antes de arrebatadas chuvas.

Trazia o vestígio incandescente dos mares de levante
a ardência duma praia restituída de lembranças.

Era uma semente a colorir os teus quadris de incenso
uma celebração ofegante sobre o umbral dum leito.

Relembro-o pela terra, os frutos, as formas macias
do respirar do vento como em teus olhos de alecrim.

E nunca hei-de renunciar ao seu apelo mágico, 
para não desmerecer, num sonho, o teu pretérito.

sábado, 12 de novembro de 2016

ERA NOVEMBRO


Era Novembro e chovia na cidade.

Pairava um halo sobre as casas
um fastio dulcíssimo nos corpos.

Soavam fogos de harmonias
que falavam de outras eras
doutros sonhos, doutras águas

palavras que traziam novelos de palavras 
murmúrios, comércio de pequenas alegrias
que acendiam memórias doutros tempos

e uma flauta que ardia nos teus olhos
a melancolia esdrúxula de meus dias.

AGORA PODE VER COMO FICOU O RESPECTIVO VÍDEO  AQUI

domingo, 6 de novembro de 2016

OS TEUS OLHOS


    Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios
perpassando na bruma antiquíssima da montanha
e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas
que se extinguem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes vales
iluminando a cinza prateada das escarpas
e a cor serena tranquila das memórias
que renascem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas
onde crescem os ventos ágeis da planície,
a luz milenar da manhã primeira
que me acordou ao clarim da aurora.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SONETO MODERNO

Sob a influência de variadas energias e vapores,
a cobra enrosca-se na árvore do fogo. 
É um exercício adoçado pela música das nuvens 
grandes espasmos de alegria sobre a terra.

Por ali passa a ebulição dos fluidos
actor de mil anos de efervescência 
bailarino das areias consumado mestre
das intuições aprendidas desde a fonte. 

Vão sobrar as cinzas e as memórias
duma constelação de viagens ao sol
também o frio imparável dum estio vindouro.

Mas esse é o destino das cores que empalidecem
quando nasce o dia e vem o vento violento
a varrer o chão, a habitação do barro e das pedras.


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

AS ESTRELAS

                    

                   A rose
                   is a rose
                   Gretrude Stein



Rosas são rosas, no dizer britânico.

Ela disse rosas. Eu digo estrelas.

E céus e átomos e neutrinos
e o protoplasma que deu cor ao perfume das rosas
e ao ser pensante que pensou sobre o próprio pensamento
e ao feixe hertziano que há-de pairar
sobre todas as cabeças de todos os seres pensantes,
em todos os céus e todos os universos.

Digo estrelas porque as estrelas também florescem
e morrem
como as rosas se acendem numa fragrância de cores
e fenecem
perdurando na memória do ser-pensante,
ele próprio pó das estrelas, átomos e neutrinos
como um deus eterno e distraído
na solidão para sempre eterna e distraída.

domingo, 9 de outubro de 2016

O MÁRMORE


O mármore, 
o escopro modelar
acariciando as formas ideadas,
a maternidade feita vida 
numa pedra.

Sopro de helénicas 
indústrias da perfeição 
de olhar uma deusa nua
banhando-se 
no Éden deste mundo.

Oh, serena descrição do amor!

Oh. grito erguendo a alma
para repensar a utopia
na pureza branca
duma pedra!

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O REGRESSO


A passagem das horas
o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e sombras

trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações de silêncio e apaziguamento.

É aqui
onde deveremos aprender
os festejos da luz
a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente

a nossa casa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

JUNTO AO MAR


Junto ao mar, nesta baía suave de azul cobalto,
deixo-me envolver nos confins do pensamento,
o recorte do céu, a expressão mais nua do chão

e contemplo a narrativa das areias desta praia,
a voz antiga que desfez a pedra dos montes
no tumulto das grandes impiedosas chuvas.

O meu arrebatamento é a história que leio
nos veios engendrados pelo refluxo da maré,
as algas deixadas junto ao limite das águas

a própria índole maiúscula dos grãos de areia
que jazem ao sabor da vastidão dos abismos
traçados nos penhasco descidos da montanha.



sábado, 20 de agosto de 2016

OS CAMINHOS DA PLENITUDE


Para trilhar os caminhos que levam à plenitude
escolhem-se as veredas mais ímpias, sem flores
ou flores gastas pelo faro dos pássaros

porque a pura ciência dos rios se constrói
por entre as pedras escorregadias, lisas
das margens, não pela geografia das cores
o brilho intransigente das primaveras.


terça-feira, 9 de agosto de 2016

LAGOS ONTEM (continuação)

Outro vídeo do DVD Lagos Ontem, 
referente a uma zona emblemática da cidade velha.
Foi apresentado e projectado 
na Feira do Livro de Autores de Lagos, 
(no Armazém Regimental).

clicar youtube

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

LAGOS ONTEM (CD)

Ontem, dia 4, apresentei o CD, de nome Lagos Ontem.
O evento teve lugar na feira/mostra de Autores de Lagos, 
no Armazém Regimental, desta cidade.
Trata-se dum conjunto de vídeopoemas (agora posto a circular), concebido a partir do livro "Lagos Ontem
e que mostram como era a cidade e sua vida, 
em meados do século XX *

Eis um desses vídeopomas:
Clicar youtube para écran completo
***
* 2 ª Edição da Câmara Municipal de Lagos


quinta-feira, 16 de junho de 2016

A CASA ANTIGA



Estas paredes preservam o modelo antigo
das casas
o método tradicional do corpo instituído
por analogia às árvores                                                                                                     

um envelope para guardar a seiva
a estrutura íntima das flores
em sua esfinge impenetrável.

Têm as raízes na terra
como as memórias dum rio,
uma transparência donde se vê o fundo
a sombra célere enigmática das margens

Mantêm a dignidade vertical dum lírio
como um poço de vertigens, uma faísca
que perdura

e a mesma janela antiga descerrada,
uma onda transviada em mera dispersão da luz,
como o fazem os fogos da paixão
que se derramam pelas bermas dos caminhos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

PEDRA DA PROMISSÃO


Novo e novo e sempre igual
o dia de amanhã
tece fantasmas no écran.

Pode chover dias e dias a fio
como as folhas no Outono,
pode sentir-se o frio das palavras sólidas
como a única certeza do condenado,
podem mesmo aparecer sinais no céu
a dizer que não há nada,
que o poeta
atento e absorvido
sonha sonhos impossíveis de sonhar

e espera pelo dia prometido.

sábado, 28 de maio de 2016

POEMA DE AMOR


Eras bela pela tarde à luz mutante
no teu rosto de menina,
já mulher
e anunciavas flores de jasmim
num lascivo desejo de romãs
que acendias devagar em minhas mãos.

Eras tu que trazias o enigma resolvido
da plenitude na planície, na longa espera
duma pétala oscilando ao sol,
o pólen dum lírio madrugador a clarear
o horizonte, o meu sangue ansioso
por assistir à cerimónia repetida
das espigas e do pão.

Trazias pela tarde o meu sustento
até ao fim da ausência,
o arco-íris
como a crina dum cavalo ao vento
emudecendo a cinza de meus olhos.

Eras tu a voz que se ouvia na vertigem
de olhar uma aldeia acordada por tambores,
nas origens, no orvalho, no barro
dum prelúdio que já tive, de alegrias.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O coração conhece o segredo


O coração conhece o segredo dos pássaros,
a ânsia de horizontes para além do horizonte.

O segredo dos pássaros é uma centelha
de luz rebuscando a simplicidade duma vida

mas em mim apenas memórias difusas de exiguidade
e fantasmas de veludo passeando mãos inertes
sobre o meu rosto

ou labaredas azuis duma tarde quente
e o fio dum arco-íris
em suas cores de transparência e frio.

O coração conhece o segredo dos pássaros
e o seu degredo.

E eu apenas recomeço sempre os trabalhos
da simplicidade da minha vida
e reconheço a sua exiguidade

guiada por horizontes de bruma.

em "Os Lábios Múltiplos da Página", a ser apresentado em Agosto.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

(excerto) de NU TEMPO


 VII

   “A claridade é uma justa repartição de sombras e de luz. 
   Goethe
  
Descrever os seus domínios,
a respiração bárbara da nossa ansiedade,
a sua dimensão alada
‒ o domínio improvável da dimensão
que paira sobre as elementares dimensões do nosso corpo,
como aquelas manhãs que se fecham
num quarto de janelas  fechadas ‒,

é árdua tentativa desvendar
a textura das areias duma rosa no deserto,
os domínios da sua solidão petrificada,
o azul dos céus, o além inquieto, o lilás e o rosa
que perfuram o cinzento dos dias 
com um dilúvio de sol para a nossa sede,

mas  mais que tudo
o que nunca nos atrevemos a dizer
do pacto imperturbável das águas
com os restos da poeira,
repartindo as sombras e a luz,
as divagações dos faunos e do vento batendo nas árvores
levando para longe as folhas, dispersando-as
com paixão pelo desmembramento,
cumprindo a subtil função do sistema
transparente,

que vemos muito para além do azul dos céus.

pp 21

Extracto de Nu Tempo, um dos meus próximos livros

sábado, 30 de abril de 2016

RENASCER


Borboleta bonitita
pôs os ovos
numa couve
do quintal.

Ai, céus, menina:

A beleza principal!

domingo, 24 de abril de 2016

PROCURO UM LUGAR

Procuro um lugar
nas margens do campo aberto,
um lugar para abrir
a voz das minhas interrogações
sentenciadas ao silêncio
das sentenças imperativas -

a minha desgastada busca
pelas estradas mudas
onde se busca o fim.

Não o encontro,
embora saiba que a fronteira
é vasta,

vastas as margens dos lugares
onde é possível
sonhar a aurora,
no abismo
de encontrar um caminho
de plenitude
no meio da bruma.

inédito

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Novelo de Pó


Não vou dizer-te os meus pensamentos íntimos
não quero convencer-te do que é inútil e vão
para a história impreterível das eras,
o redundante levado pelo fio dos séculos
direito a um céu velho de estrelas

porque o meu tempo é o que corre nas minhas veias
e só a mim pertence,
porque é apenas infinitivamente meu
o novelo de pó que a areia reorganiza
na geografia dum deserto,
a harmonia própria do meu próprio deserto.


quinta-feira, 31 de março de 2016

UM DIA


Um dia acende-se o fulgor do palco,
cai o pano sobre o pó.

Evaporam as palavras de teus olhos.

Um pássaro boceja à beira do tempo.

Depois,
não há antes nem depois.

Apenas um silêncio,
um perfume ecoando sobre o vale,
uma folha distraída levada pelo rio.

segunda-feira, 21 de março de 2016

CHEIRAR O PÓ

A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.

Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes

é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável


e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.


segunda-feira, 14 de março de 2016

É VIOLENTA A BRISA


É violenta a brisa pela tardes de outono,
uma angústia infinita como um túmulo       
que sopra sobre um desespero sereno.

E longa é a distância onde soa a claridade,
porque remoto é o recanto do cantar
tranquilo, as noites longínquas do sonho.



quarta-feira, 9 de março de 2016

O ciclo da água


Onde o corpo percorremos feito de água.

Onde o corpo percorremos    percorremos
o ciclo da água.

Onde o instante desvendamos    desvendamos
o gesto
pelas mãos.

Possível
–  feito de água  –


mas possível.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cidade anónima


Chego a esta cidade
despido de emoções
as mãos vazias
o olhar vago, sem referências.

Trago apenas uma pequena auréola de luz
a enfeitar o meu cabelo
pela desobediência aos ritmos
os cinzentos que leio nos ares.

Corpos estranhos desenham-se
na nudez das minhas veias
como o silêncio das águas
dum lago a rasar o azul

É tarde para situar-me
na amálgama das ruas

Só me resta uma nesga de sol
antes da noite que soa.


 inédito