quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Arquivo Bucólico


Somos um arquivo bucólico de memórias,
o mote rústico duma estrofe repetida
ecoada pelos vales, plena de sabores e sal
que transportamos pela vida, dentro do sangue,
e entretemo-nos na presunção de que cresçam
dos nossos actos as ervas regeneradas
pela primavera das vidas que perpassam.

Conservamos imagens bolorentas, baços
retratos de antepassados que mal conhecemos
talvez na esperança de que os nossos filhos
guardem os nossos, ou os venerem
e evoquem outros rastos de outras vidas,
entendam a frágil angústia que foi a nossa.

Elas são o espelho de cópias degeneradas 
iguais à paisagem que adivinhamos na história
dos que por aqui passaram deixando lembranças
de outros dramas ou alegrias passageiras
iguais às que se avizinham no tempo que passa,
por cima do grande mar que desponta os sóis.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SONETO MODERNO

Sob a influência de variadas energias e vapores,
a cobra enrosca-se na árvore do fogo. 
É um exercício adoçado pela música das nuvens 
grandes espasmos de alegria sobre a terra.

Por ali passa a ebulição dos fluidos
actor de mil anos de efervescência 
bailarino das areias consumado mestre
das intuições aprendidas desde a fonte. 

Vão sobrar as cinzas e as memórias
duma constelação de viagens ao sol
também o frio imparável dum estio vindouro.

Mas esse é o destino das cores que empalidecem
quando nasce o dia e vem o vento violento
a varrer o chão, a habitação do barro e das pedras.


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

AS ESTRELAS

                    

                   A rose
                   is a rose
                   Gretrude Stein



Rosas são rosas, no dizer britânico.

Ela disse rosas. Eu digo estrelas.

E céus e átomos e neutrinos
e o protoplasma que deu cor ao perfume das rosas
e ao ser pensante que pensou sobre o próprio pensamento
e ao feixe hertziano que há-de pairar
sobre todas as cabeças de todos os seres pensantes,
em todos os céus e todos os universos.

Digo estrelas porque as estrelas também florescem
e morrem
como as rosas se acendem numa fragrância de cores
e fenecem
perdurando na memória do ser-pensante,
ele próprio pó das estrelas, átomos e neutrinos
como um deus eterno e distraído
na solidão para sempre eterna e distraída.

domingo, 9 de outubro de 2016

O MÁRMORE


O mármore, 
o escopro modelar
acariciando as formas ideadas,
a maternidade feita vida 
numa pedra.

Sopro de helénicas 
indústrias da perfeição 
de olhar uma deusa nua
banhando-se 
no Éden deste mundo.

Oh, serena descrição do amor!

Oh. grito erguendo a alma
para repensar a utopia
na pureza branca
duma pedra!