terça-feira, 6 de dezembro de 2016

POEMA DE NATAL (2)


Uma ideia persiste no coração do mundo:
a imagem pura a água limpa duma fonte
uma palavra chã em seu natural anseio.

Por ela meditaremos em antiquíssimos relatos
a viuvez dum musgo na frágua da montanha
ou o desterro para uma flor esfarrapada
tolhida em absurdos espectáculos de agonia.
  
E façamos do murmúrio um chão sadio
que floresça a urze do chão remoto
o ofício da luz abrindo devagar a terra
para os frutos indomáveis da alegria.

Os nossos dias também têm um sentido lato
superior às mínguas às figuras de excesso
mais profundo que o mecanismo duma roda.

Por isso celebremos a ideia de Natal
para que seja um exercício repetido de louvor 
à grandeza anónima irrepetível duma vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

POEMA DE NATAL (1)


Vem das profundezas, do fim das trevas,
um caminho quase mítico para os exercícios da alegria,
ali tão perto, no barro ainda mole dos antigos.

Assim o pressentimos em fogos de encantamento
na enorme plenitude do orvalho das manhãs.

E talvez nos enredemos em ludíbrios ágeis
pela cerimónia de louvar a imagem virtual dum deus
no seu nicho distante negligenciando as vozes da planície,
mas vale a pena tentarmos nós próprios a utopia,
porque os deuses estão longe, delidos noutros dilemas,
noutras abstrações inatingíveis,
porventura ainda mais utópicas que as nossas.

Diremos Natal como quem diz um bálsamo
ou um violoncelo tangendo um prelúdio chão -
testemunho duma fogueira na água
e no pó do nosso destino também um murmúrio incerto
alheio à vontade transparente das estrelas.

Agora já pode ver o vídeo 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

FLORES DE OUTONO


Agora vou reclinando o corpo
entre a terra e as estrelas.

O espaço é breve
para a brisa do mar
que ainda soa.

E no entanto,
adormeço
no meu sonho,
sereno de harmonias
                                
incendiando o fino pó
da terra
com estas flores violetas,


exíguas, violentas, do outono.


Agora pode ver o respectivo videopema clicando          
 aqui

sábado, 19 de novembro de 2016

MEMÓRIA DO TEU CORPO

A memória do teu corpo é a paisagem dum tumulto
um cântico absorto antes de arrebatadas chuvas.

Trazia o vestígio incandescente dos mares de levante
a ardência duma praia restituída de lembranças.

Era uma semente a colorir os teus quadris de incenso
uma celebração ofegante sobre o umbral dum leito.

Relembro-o pela terra, os frutos, as formas macias
do respirar do vento como em teus olhos de alecrim.

E nunca hei-de renunciar ao seu apelo mágico, 
para não desmerecer, num sonho, o teu pretérito.

sábado, 12 de novembro de 2016

ERA NOVEMBRO


Era Novembro e chovia na cidade.

Pairava um halo sobre as casas
um fastio dulcíssimo nos corpos.

Soavam fogos de harmonias
que falavam de outras eras
doutros sonhos, doutras águas

palavras que traziam novelos de palavras 
murmúrios, comércio de pequenas alegrias
que acendiam memórias doutros tempos

e uma flauta que ardia nos teus olhos
a melancolia esdrúxula de meus dias.

AGORA PODE VER COMO FICOU O RESPECTIVO VÍDEO  AQUI

domingo, 6 de novembro de 2016

OS TEUS OLHOS


    Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios
perpassando na bruma antiquíssima da montanha
e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas
que se extinguem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes vales
iluminando a cinza prateada das escarpas
e a cor serena tranquila das memórias
que renascem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas
onde crescem os ventos ágeis da planície,
a luz milenar da manhã primeira
que me acordou ao clarim da aurora.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Arquivo Bucólico


Somos um arquivo bucólico de memórias,
o mote rústico duma estrofe repetida
ecoada pelos vales, plena de sabores e sal
que transportamos pela vida, dentro do sangue,
e entretemo-nos na presunção de que cresçam
dos nossos actos as ervas regeneradas
pela primavera das vidas que perpassam.

Conservamos imagens bolorentas, baços
retratos de antepassados que mal conhecemos
talvez na esperança de que os nossos filhos
guardem os nossos, ou os venerem
e evoquem outros rastos de outras vidas,
entendam a frágil angústia que foi a nossa.

Elas são o espelho de cópias degeneradas 
iguais à paisagem que adivinhamos na história
dos que por aqui passaram deixando lembranças
de outros dramas ou alegrias passageiras
iguais às que se avizinham no tempo que passa,
por cima do grande mar que desponta os sóis.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

SONETO MODERNO

Sob a influência de variadas energias e vapores,
a cobra enrosca-se na árvore do fogo. 
É um exercício adoçado pela música das nuvens 
grandes espasmos de alegria sobre a terra.

Por ali passa a ebulição dos fluidos
actor de mil anos de efervescência 
bailarino das areias consumado mestre
das intuições aprendidas desde a fonte. 

Vão sobrar as cinzas e as memórias
duma constelação de viagens ao sol
também o frio imparável dum estio vindouro.

Mas esse é o destino das cores que empalidecem
quando nasce o dia e vem o vento violento
a varrer o chão, a habitação do barro e das pedras.


domingo, 9 de outubro de 2016

O MÁRMORE


O mármore, 
o escopro modelar
acariciando as formas ideadas,
a maternidade feita vida 
numa pedra.

Sopro de helénicas 
indústrias da perfeição 
de olhar uma deusa nua
banhando-se 
no Éden deste mundo.

Oh, serena descrição do amor!

Oh. grito erguendo a alma
para repensar a utopia
na pureza branca
duma pedra!

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O REGRESSO


A passagem das horas
o perpassar dos dias
o lento fervilhar do tempo em seus artifícios
de claridade e sombras

trazem-nos a este lugar preciso
de quietude
em ondulações de silêncio e apaziguamento.

É aqui
onde deveremos aprender
os festejos da luz
a sombra do pecado original
dos fascínios
pelo regresso urgente

a nossa casa.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

JUNTO AO MAR


Junto ao mar, nesta baía suave de azul cobalto,
deixo-me envolver nos confins do pensamento,
o recorte do céu, a expressão mais nua do chão

e contemplo a narrativa das areias desta praia,
a voz antiga que desfez a pedra dos montes
no tumulto das grandes impiedosas chuvas.

O meu arrebatamento é a história que leio
nos veios engendrados pelo refluxo da maré,
as algas deixadas junto ao limite das águas

a própria índole maiúscula dos grãos de areia
que jazem ao sabor da vastidão dos abismos
traçados nos penhasco descidos da montanha.



sexta-feira, 2 de setembro de 2016

O DESTINO DA LUZ


Não é senão a vida
o destino supremo da luz.

Por isso o incansável coração procura as suas origens
o seu âmago
a madrugada dos sonhos

o brilho duns olhos
que emudece a clarividência
do que se vê nas sombras.

Por isso a tua vida
só vale pelo tempo da tua vida

só vale pela canseira da tua incessante busca
na luz que inundou teus olhos

com o esplendor que leste
de menino

num grão de trigo.

sábado, 20 de agosto de 2016

OS CAMINHOS DA PLENITUDE


Para trilhar os caminhos que levam à plenitude
escolhem-se as veredas mais ímpias, sem flores
ou flores gastas pelo faro dos pássaros

porque a pura ciência dos rios se constrói
por entre as pedras escorregadias, lisas
das margens, não pela geografia das cores
o brilho intransigente das primaveras.


domingo, 14 de agosto de 2016

terça-feira, 9 de agosto de 2016

LAGOS ONTEM (continuação)

Outro vídeo do DVD Lagos Ontem, 
referente a uma zona emblemática da cidade velha.
Foi apresentado e projectado 
na Feira do Livro de Autores de Lagos, 
(no Armazém Regimental).

clicar youtube

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

LAGOS ONTEM (CD)

Ontem, dia 4, apresentei o CD, de nome Lagos Ontem.
O evento teve lugar na feira/mostra de Autores de Lagos, 
no Armazém Regimental, desta cidade.
Trata-se dum conjunto de vídeopoemas (agora posto a circular), concebido a partir do livro "Lagos Ontem
e que mostram como era a cidade e sua vida, 
em meados do século XX *

Eis um desses vídeopomas:
Clicar youtube para écran completo
***
* 2 ª Edição da Câmara Municipal de Lagos


terça-feira, 21 de junho de 2016

BÚZIOS



Um menino trazia um fio de búzios

na concha da minha mão.



Era criança

mais jovem do que eu julgava

ou imaginava ser

ou ver

no azul profundo os tons ocre e sépia

da falésia

que caía sobre o mar.



Era o tempo das nêsperas e das amoras

que ainda brilham

nos meus olhos.



Mas era já o tempo das ondas lavrando

a areia, gaivotas estridentes

clamando contra o vendaval.



E o menino nada sabia do vento áspero

da montanha

nem da rigorosa fixidez

do pão do condenado.



Ah, o menino

era apenas uma criança ainda jovem

que procurava búzios na praia

junto ao mar

no azul profundo do céu

que imaginava

na cor das nêsperas e das amoras

que ainda hoje animam

os meus olhos

e o próprio mar!...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A CASA ANTIGA



Estas paredes preservam o modelo antigo
das casas
o método tradicional do corpo instituído
por analogia às árvores                                                                                                     

um envelope para guardar a seiva
a estrutura íntima das flores
em sua esfinge impenetrável.

Têm as raízes na terra
como as memórias dum rio,
uma transparência donde se vê o fundo
a sombra célere enigmática das margens

Mantêm a dignidade vertical dum lírio
como um poço de vertigens, uma faísca
que perdura

e a mesma janela antiga descerrada,
uma onda transviada em mera dispersão da luz,
como o fazem os fogos da paixão
que se derramam pelas bermas dos caminhos.