segunda-feira, 18 de setembro de 2017

SETEMBRO

Setembro é o mês dos grandes fogos. 
A devastação
do chão devagar bebendo a seiva imperturbável
onde a cinza refeita dos séculos reacende
o resplendor das manhãs, nas árvores macilentas,
com o seu bafo de menina que vai morrer.

Por ele se redime 
o cardume das aves migratórias
rumo ao sul dos sóis inumeráveis
perdido que foi do estio, o agosto ardente,
a terra descalça, seca, 
nas ambições do trigo.

Mês onde o leão a virgem devora lentamente
com o seu rosto de ervas
amarelas da tarde macerada.

Por ele se esvai o brilho do riacho
às portas do mar correndo,
de tão longo augúrio o amor desfeito.

Mês onda a pedra avulta perene 
o esplendor dum réptil
e o réptil reganha a cor a condição
da pedra.

Setembro é o grande mês dos fogos
primordiais,
  tardes que se alongam em vozes frias
com a exactidão precisa dum alçapão
e um tumulto de folhas secas roça
o dorso incerto do valado
grisalho, de aranhas agonizantes voando
em teias de pó no ar incerto
ou ao mar do vento desabrido e sonolento.

Por aqui passam os últimos enleios 
do despertar
a frágil representação da cena das espigas
brisas cravadas de papoilas, 
sinfonias de luzes,
enquanto os grandes espaços se enchem
do último voltear dum insecto doido.
na secura, na vertigem inquieta 
do fim do dia
inquieto pelas chuvas anunciadas.

Setembro é fogo do fogo. 

O princípio da cinza, 
o princípio do princípio.





terça-feira, 8 de agosto de 2017

POEMA DRAMÁTICO

Dei por mim indo por uma rua encurralada
num muro branco com portais encimados
por brasões, armas e arabescos, sem janelas,
sem sinais de gente.

Subi para ver o interior que era um quintal
que parecia cheio de túmulos com sepulturas cinzentas
mas depois percebi que eram cadeiras de mármore
em forma de faunos esfinges e ninfas
num jardim de laranjeiras loureiros e oliveiras.

Entrei por uma nesga
dei com uma casa de porta aberta
e logo vi uma linda moça deitada
enrolada em folhos brancos de brancos lençóis
que me sorriu persistentemente.

Mas não era ela que eu procurava.

O que eu procurava essa mulher que nunca conheci
e que vira descer até junto à praia
por um carreiro estreito,
como o beco duma porta, para sempre fechada.

Acordei.

A mulher já lá não estava,
ou nunca existira?

Jamais o saberei.

Como jamais saberei quem era aquela menina formosa
entre os folhos duma cama
que me sorria persistentemente
deitada entre ninfas e faunos
num jardim de loureiros laranjeiras e oliveiras.


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O POETA

O poeta só diz o que ninguém sabe
só espera o que nunca pode dar-se
o milagre que não virá a repetir-se
o que nunca tampouco tem sentido
      
o poeta conhece as cores pelo cheiro
as formas pelo tempo
o grito pelo tacto.

o poeta escapa entre os dedos
é um peixe paleocénico
o poeta chora em língua estrangeira

o poeta só não acredita no que crê
é um sábio geómetra doutras dimensões
de mundos paralelos que são planos
oblíquos como espinhos no interior da casa
só sabe da eterna ressurreição da palavra
na transmutação lunar dos dias                                                      
feita eco de fragrâncias mágicas
só crê na fraterna limpidez das seivas
na concreta viuvez dum líquen

o poeta é um bicho instigador
demolidor

Quando o  poeta sai à rua
come pedras e pó
alimenta-se do ar
corre a cidade com os lábios
atrasa o barco dos horários
só embarca em navios com árvores por dentro
e pássaros nos remos
direito ao grande mar da obscuridade
e da ciência abstracta dum beijo.
      
O poeta não tem medo da chuva
nem de tremores de terra
nem do ágil vento sobre a cabeça
o poeta sai descalço
avança destemido por entre as pedras
porque das pedras reconhece os cristais
e a palha
o poeta respira pelos poros
dos ouvidos
e é com os ouvidos que compõe
a música matinal perpétua
que traz nos olhos.



sábado, 22 de julho de 2017

POEMA AO COMPUTADOR


Oh, meu bento computador,
quanto me trazes em repouso e equilíbrio
com a destreza das tuas funções automáticas
a tua precisa formatação do espaço e seus limites,
a correcção ortográfica das minhas falhas!

Quanto sustentas a minha serenidade
quando corro os dedos pelos teus sentidos,
substituindo o quartzo já gasto da minha memória
pela eficácia dos teus atributos,
pelo tacto dos teus arranjos algébricos
para os ecos da palavra
e do suor das cinzas dos meus versos!

Meu bento computador
quanto bendigo os teus gestos de luz e cores
e o leque das tuas opções adequadas,
nas tons que imprimes no écran dos meus olhos,
na harmonia com que reescreves o acervo
das mil loucuras que trago debaixo das veias,
ou no exercício tecnológico da sintaxe,
que estendes pelas páginas já abertas!

Tens o dom de inserir estilos de impressão
nos meus devaneios léxicos, prosaicos
suaves como águas que se enxugam nas areias do chão,
silêncios que arquivo no teu sistema de ficheiros
invioláveis, por meu capricho e teu zelo sereno
na minha vontade e meus caprichos perecíveis.

És a continuação da obra 
feita formosura no espaço da página
e nunca me desvias do caminho aberto
com que suponho a arquitectura irregular
dum círculo de palavras, ou dum ciclo de sons
onde inscrevo as minhas dores irreveladas
que ciosamente escondes de olhos estrangeiros,
só acessíveis a quem saiba a palavra-
-passe
da morte adiada programada
da minha vida.


domingo, 16 de julho de 2017

O EDIFÍCIO


O edifício das palavras,
o projecto inerente à ideia
e aos degraus da leitura

o processo linear dos sons
e dos afectos

um pouco de embriagues
para questionar as sombras e a luz

eis a explosão programada
do poema

o agitar dos mistérios
no desassossego e na emoção
de dizer o indizível


à luz do dia.

terça-feira, 11 de julho de 2017

O vento não pára


O vento não pára.

Nem param as ondulações do tempo,
a assimetria luminosa
das cores.

A vida corre ao sabor destas divagações
da água,
em redemoinhos dum vento 
que vem de longe,
doutros sismos da Terra
- a ciência fulgurante do Sol.

Nós
apenas partilhamos o lenho cósmico,
melódico reflexo dos seus acordes
e do acaso. 

O ocaso.

terça-feira, 4 de julho de 2017

ARTES MÁGICAS

Por artes mágicas
e outras lógicas
nos rigores do mar
nas velas brancas
como espuma de ar
derribando os continentes
e as ilhas
por onde andei

nas noites e nos dias
me aventurei
ao interior dos vulcões
e vi
nas noites do sonho
e utopia,
a lua clara

em pleno dia.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ROSAS E ESTRELAS

               A rose 
               is a rose

               Gertrude Stein

                                                          

            Rosas são rosas, no dizer britânico.

            Ela disse rosas. Eu digo estrelas.
            E céus e átomos e neutrinos
            e o protoplasma que deu cor ao perfume das rosas
            e ao ser pensante que pensou sobre o próprio pensamento
            e ao feixe hertziano que há-de pairar
            sobre todas as cabeças de todos os seres pensantes,
            em todos os céus e todos os universos.

            Digo estrelas porque as estrelas também florescem
            e morrem
            como as rosas se acendem numa fragrância de cores
            e fenecem
            perdurando na memória do ser-pensante,
            ele próprio pó das estrelas, átomos e neutrinos
            como um deus eterno e distraído
            na solidão para sempre eterna e distraída.



domingo, 11 de junho de 2017

ESTA RUA


Fonte de sabedoria é esta rua.

A pedra gasta.

O umbral da porta velha
de ruínas e (de)lírios.

O lancil direito à luz
onde se abriga a sombra

a pronunciar um adeus

aos lírios e aos silêncios.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

IMAGINO

f
Imagino uma folha de papel branco,
uma ideia de horizonte
para as fronteiras da luz,
a margem vigilante       
da utopia.

A ideia assume-se
no espaço da página,
em promessa indizível
incendeia-se.

A palavra floresce
a metáfora nua
dentro dum casulo de memórias
de pele verdadeira.

É infinita
no círculo das águas,
na precária transição
para o real,
o quotidiano inconsciente.

Tanto recobre os interstícios
da página
como se sobrepõe ao vazio do espaço,
na cor neutra do vidro.

Uma página em branco
É
o lugar do amor
o lugar
duma impressãozinha vegetal
na parte de fora da alma,
junto aos muros do sangue

bruma branca de reminiscências
as mais interiores   encobertas
as mais pardas   fundas

Sobre a página se desenha a corda
entrelaçada,
linhas curvas vergam para além
dos limites do chão,
transcendem a própria ideia de espaço,
voam até ao princípio
da luz
que ainda brilha nas praias
da inocência.

A ideia pressupõe um inventário
de cores virtuais,
arestas que se dissolvem
nos poros da matéria
onde se inscreve o espaço
do contexto.

É enorme o seu campo,
o verdete azul
das vozes pronunciadas
que disseram um caminho exangue
sobre as ondulações do tempo

para que seja possível regressar
à pureza dos dias intermináveis
em aliança com o infinito,
ao marfim dos olhos livres
nas sebes da paisagem –

provável conhecedora dos ecos
repetitivos do tempo


na palavra do poeta.

domingo, 28 de maio de 2017

domingo, 30 de abril de 2017

POEMA EM MAIO



Com seus tambores de fogo e cinza
o mel da manhã menino
de luz e sombra ‒

rosto lesto rosto
de alísio ágil cio.

O mês em que nasci.

A bruma e o sol.

O sul nascente.


O mar.

domingo, 16 de abril de 2017

CAMALEÃO


Quando voltei definitivamente a Portugal, 
já depois do 25 de Abril, decorridos que tinham sido onze anos, entre Londres e Paris 
(e muito do resto da Europa),
publiquei quatro Poemas/Postais de Intervenção.
Estávamos em 1978. 
Este era um deles. 
Hoje é actual. 



domingo, 9 de abril de 2017

Os Rumores do Vento

Um dia tenho que começar a organizar-me
eu que nunca organizei coisa nenhuma

porque nada me carece ser organizado
e nenhuma coisa me pediu para ser organizada

a não ser a teia de entender o que nada sabemos
para o modo e o método de simplesmente ignorar.

Mas o tempo urge por debaixo dos pés onde há
um silêncio virtual preso aos rumores do vento.


Tenho primeiro de organizar os rumores do vento.

em "As noites e os Dias", o meu mais recente livro, ed litoral

terça-feira, 4 de abril de 2017

O VERME


Hoje percebo o cortejo dos homens
no altar do tempo
        sem preço
        sem promessa
        sem vitória.

Hoje percebo o ajeitar da fêmea
e o sôfrego momento viril
da eternidade transmitida.

Hoje percebo o sal, o estrume
o reclame dourado do sol.

E até o verme repugnante
que nas mãos invento aos poucos
e nos sinais descubro o mesmo ciclo
de eternidade viva
        hoje
que eu vivo

percebo e canto

segunda-feira, 27 de março de 2017

HOMENAGEM ÀS ÁRVORES, pela Primavera


Façamos hoje o mesmo gesto delicado
dos nossos avós

em memória dos princípios que regem
o propósito antigo
de plantar uma árvore onde havia outra árvore
no chão que persiste

o projecto lhano do destino
de ir substituindo gerações por outras gerações
sobre a terra.

Façamos esse mesmo gesto delicado
em memória dos nossos avós
e do seu propósito antigo de reger-se
por processos que persistiram desde os antigos

que plantavam árvores para a ventura
de ver a terra coberta de flores e seus frutos
para seus filhos

filhos de seus gestos antigos dedicados
de ir plantando árvores
sobre a terra.

Pode ver o vídeo (só pela música, vale a pena...)  AQUI