quinta-feira, 28 de julho de 2016

FEIRA/MOSTRA DO LIVRO DE AUTORES DE LAGOS

A Junta de Freguesia de S. Gonçalo de Lagos, 
acaba de divulgar, 
o horário e as actividades complementares da Feira. 




terça-feira, 21 de junho de 2016

BÚZIOS



Um menino trazia um fio de búzios

na concha da minha mão.



Era criança

mais jovem do que eu julgava

ou imaginava ser

ou ver

no azul profundo os tons ocre e sépia

da falésia

que caía sobre o mar.



Era o tempo das nêsperas e das amoras

que ainda brilham

nos meus olhos.



Mas era já o tempo das ondas lavrando

a areia, gaivotas estridentes

clamando contra o vendaval.



E o menino nada sabia do vento áspero

da montanha

nem da rigorosa fixidez

do pão do condenado.



Ah, o menino

era apenas uma criança ainda jovem

que procurava búzios na praia

junto ao mar

no azul profundo do céu

que imaginava

na cor das nêsperas e das amoras

que ainda hoje animam

os meus olhos

e o próprio mar!...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A CASA ANTIGA



Estas paredes preservam o modelo antigo
das casas
o método tradicional do corpo instituído
por analogia às árvores                                                                                                     

um envelope para guardar a seiva
a estrutura íntima das flores
em sua esfinge impenetrável.

Têm as raízes na terra
como as memórias dum rio,
uma transparência donde se vê o fundo
a sombra célere enigmática das margens

Mantêm a dignidade vertical dum lírio
como um poço de vertigens, uma faísca
que perdura

e a mesma janela antiga descerrada,
uma onda transviada em mera dispersão da luz,
como o fazem os fogos da paixão
que se derramam pelas bermas dos caminhos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

PEDRA DA PROMISSÃO


Novo e novo e sempre igual
o dia de amanhã
tece fantasmas no écran.

Pode chover dias e dias a fio
como as folhas no Outono,
pode sentir-se o frio das palavras sólidas
como a única certeza do condenado,
podem mesmo aparecer sinais no céu
a dizer que não há nada,
que o poeta
atento e absorvido
sonha sonhos impossíveis de sonhar

e espera pelo dia prometido.

sábado, 28 de maio de 2016

POEMA DE AMOR


Eras bela pela tarde à luz mutante
no teu rosto de menina,
já mulher
e anunciavas flores de jasmim
num lascivo desejo de romãs
que acendias devagar em minhas mãos.

Eras tu que trazias o enigma resolvido
da plenitude na planície, na longa espera
duma pétala oscilando ao sol,
o pólen dum lírio madrugador a clarear
o horizonte, o meu sangue ansioso
por assistir à cerimónia repetida
das espigas e do pão.

Trazias pela tarde o meu sustento
até ao fim da ausência,
o arco-íris
como a crina dum cavalo ao vento
emudecendo a cinza de meus olhos.

Eras tu a voz que se ouvia na vertigem
de olhar uma aldeia acordada por tambores,
nas origens, no orvalho, no barro
dum prelúdio que já tive, de alegrias.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

O coração conhece o segredo


O coração conhece o segredo dos pássaros,
a ânsia de horizontes para além do horizonte.

O segredo dos pássaros é uma centelha
de luz rebuscando a simplicidade duma vida

mas em mim apenas memórias difusas de exiguidade
e fantasmas de veludo passeando mãos inertes
sobre o meu rosto

ou labaredas azuis duma tarde quente
e o fio dum arco-íris
em suas cores de transparência e frio.

O coração conhece o segredo dos pássaros
e o seu degredo.

E eu apenas recomeço sempre os trabalhos
da simplicidade da minha vida
e reconheço a sua exiguidade

guiada por horizontes de bruma.

em "Os Lábios Múltiplos da Página", a ser apresentado em Agosto.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

(excerto) de NU TEMPO


 VII

   “A claridade é uma justa repartição de sombras e de luz. 
   Goethe
  
Descrever os seus domínios,
a respiração bárbara da nossa ansiedade,
a sua dimensão alada
‒ o domínio improvável da dimensão
que paira sobre as elementares dimensões do nosso corpo,
como aquelas manhãs que se fecham
num quarto de janelas  fechadas ‒,

é árdua tentativa desvendar
a textura das areias duma rosa no deserto,
os domínios da sua solidão petrificada,
o azul dos céus, o além inquieto, o lilás e o rosa
que perfuram o cinzento dos dias 
com um dilúvio de sol para a nossa sede,

mas  mais que tudo
o que nunca nos atrevemos a dizer
do pacto imperturbável das águas
com os restos da poeira,
repartindo as sombras e a luz,
as divagações dos faunos e do vento batendo nas árvores
levando para longe as folhas, dispersando-as
com paixão pelo desmembramento,
cumprindo a subtil função do sistema
transparente,

que vemos muito para além do azul dos céus.

pp 21

Extracto de Nu Tempo, um dos meus próximos livros

sábado, 30 de abril de 2016

domingo, 24 de abril de 2016

PROCURO UM LUGAR

Procuro um lugar
nas margens do campo aberto,
um lugar para abrir
a voz das minhas interrogações
sentenciadas ao silêncio
das sentenças imperativas -

a minha desgastada busca
pelas estradas mudas
onde se busca o fim.

Não o encontro,
embora saiba que a fronteira
é vasta,

vastas as margens dos lugares
onde é possível
sonhar a aurora,
no abismo
de encontrar um caminho
de plenitude
no meio da bruma.

inédito

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Novelo de Pó


Não vou dizer-te os meus pensamentos íntimos
não quero convencer-te do que é inútil e vão
para a história impreterível das eras,
o redundante levado pelo fio dos séculos
direito a um céu velho de estrelas

porque o meu tempo é o que corre nas minhas veias
e só a mim pertence,
porque é apenas infinitivamente meu
o novelo de pó que a areia reorganiza
na geografia dum deserto,
a harmonia própria do meu próprio deserto.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

TU


Negros são os teus cabelos loiros
amarelos também teus olhos cinza
de negro tingirei minha alma azul

E se gosto tanto dos teus olhos
no verde intenso de teus seios
ou no rosa velho dos teus lábios
e me fica tão bem a alma anil

é porque demais gosto 
dos tons variados do arco íris

quinta-feira, 31 de março de 2016

UM DIA


Um dia acende-se o fulgor do palco,
cai o pano sobre o pó.

Evaporam as palavras de teus olhos.

Um pássaro boceja à beira do tempo.

Depois,
não há antes nem depois.

Apenas um silêncio,
um perfume ecoando sobre o vale,
uma folha distraída levada pelo rio.

segunda-feira, 21 de março de 2016

CHEIRAR O PÓ

A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.

Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes

é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável


e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.


segunda-feira, 14 de março de 2016

É VIOLENTA A BRISA


É violenta a brisa pela tardes de outono,
uma angústia infinita como um túmulo       
que sopra sobre um desespero sereno.

E longa é a distância onde soa a claridade,
porque remoto é o recanto do cantar
tranquilo, as noites longínquas do sonho.



quarta-feira, 9 de março de 2016

O ciclo da água


Onde o corpo percorremos feito de água.

Onde o corpo percorremos    percorremos
o ciclo da água.

Onde o instante desvendamos    desvendamos
o gesto
pelas mãos.

Possível
–  feito de água  –


mas possível.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cidade anónima


Chego a esta cidade
despido de emoções
as mãos vazias
o olhar vago, sem referências.

Trago apenas uma pequena auréola de luz
a enfeitar o meu cabelo
pela desobediência aos ritmos
os cinzentos que leio nos ares.

Corpos estranhos desenham-se
na nudez das minhas veias
como o silêncio das águas
dum lago a rasar o azul

É tarde para situar-me
na amálgama das ruas

Só me resta uma nesga de sol
antes da noite que soa.


 inédito

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

AS COISAS

Olho demoradamente as coisas
que me rodeiam.

Elas aí estão, paradas, em seu esplendor
de existir
no seu tempo de lugar absoluto.

Mas apenas consomem o tempo,
o meu questionar
no seu esplendor parado,
como um poema escrito
e nunca verdadeiramente entendido.

inédito