quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

POEMA DRAMÁTICO


Fechado durante séculos,
o livro guardava o mistério das altas torres,
a água subterrânea das fontes.
Um nómada inquieto, 
filho das sombras,
indiscreto como uma criança,
o abriu.
Dentro, permanecia, inerte,
absorta no seu segredo, a gravura.
Quando o papel me chegou às mãos,
trazia pintado, a lápis de cor,
esse edifício imponente em seus tons verde e castanho,
como uma árvore.
Era a imagem comovente de antigos cadafalsos,
que arrepiava os ossos de perceber a intensidade
e o drama daquelas vidas,
hoje apenas o verdete nos beirais das casas,
uma luz oblíqua e um tecto despovoado 
aberto às chuvas e aos pássaros 
que sopram nos princípios da primavera. 
Observo este estado de alma,
esta vertigem de ver os artifícios duma flor confrangedora 
apegada à utopia,
numa sensação de frio, de imprecisos contornos,
da claridade esmorecida.
Regresso ao mundo, fora do castelo tranquilo.
A angústia mistura-se a um murmúrio,
a uma tranquilidade virtual,
a sedução pelo equilíbrio do sistema.
A gravura voltara para o interior do livro,
ao seu lugar de repouso,
fechado para outros séculos de indulgência.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

O MEU TEMPO


Não vou dizer-te os meus pensamentos íntimos
não quero convencer-te do que é inútil e vão
para a história impreterível das eras,
o redundante levado pelo fio dos séculos
direito a um céu velho de estrelas

porque o meu tempo é o que corre nas minhas veias
e só a mim pertence,
porque é apenas infinitivamente meu
o novelo de pó que a areia reorganiza
na geografia dum deserto,
a harmonia própria do meu próprio deserto.

em "AS NOITES E OS DIAS", Ed. Litoral, 2014

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

OS MUROS DA CIDADE


Onde inventar um caminho legítimo
para o êxodo, uma porta entreaberta
respirando o ar que vem da terra?

Os muros da cidade sustentam-se
destas incertezas, destas cortinas
de fogo, este balbuciar de cansaços
imperfeitos, tranquilos como fumo
esparso, dispersando vozes alheias.

Não nos inclina a dureza das pedras,
a sua fiel sabedoria de intransigências.

Mas tarde é inútil, para fingir exílios.

Hoje já é ontem, para o fim indiciado.

...em "CAUSAS DE HABITUAÇÃO" - a publicar

domingo, 4 de janeiro de 2015

OS TEUS OLHOS


Os teus olhos perpetuavam a lembrança dos grandes rios
perpassando na bruma antiquíssima da montanha
e tinham o silêncio trémulo transparente das estrelas
que se extinguem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham a serenidade dos grandes dias
iluminando a cinza prateada das escarpas
na cor serena tranquila das memórias
que renascem ao clarim da aurora

Os teus olhos tinham o sussurro rumorejante das ervas
onde crescem os ventos ágeis da planície
a luz milenar da manhã primeira
que me acordou ao clarim da aurora.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

AS COISAS


Olho demoradamente as coisas
que me rodeiam.

Elas aí estão, paradas, em seu esplendor
de existir
no seu tempo de lugar absoluto.

Mas apenas consomem o tempo,
o meu questionar
no seu esplendor parado,
como um poema escrito
e nunca verdadeiramente entendido.

em As Noite e os Dias, ed. Litoral. 2013

DESEJO UM NOVO ANO PRÓSPERO E FELIZ,
A TODOS OS MEUS VISITANTES!