Terça-feira, 14 de Julho de 2009

O TEMPO PASSA À FLOR DUM VIDRO

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O tempo passa à flor dum vidro

transparente de angústias, de alegrias,

desfeito em silêncios, em ausências.

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Só nos sustenta a frescura lhana

das manhãs, a brisa apolínea dos estios,

porque buscamos a nudez, a despojada luz

o sonho rupestre persistente das origens.

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em "Transparências", ed. AJEA


Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

HOMENAGEM A LEONEL NEVES

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A Universidade do Algarve, em Faro, homenageou o poeta algarvio Leonel Neves, no dia 10 de Julho.

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Leonel Neves nasceu em Faro, em 1921, onde fez a Escola Primária, mas as suas raízes levavam-no sempre para o Barlavento (Casalta, na serra, e Vale da Lama, junto ao mar, em Odeáxere, Lagos), durante as férias.

A continuação dos estudos foi em Lisboa, para cursar Matemática na Faculdade de Ciências e formar-se em Engenheiro Geógrafo. Durante este período, juntamente com Ário de Azevedo, Joel Serrão, Rui Grássio, pertence à redacção do jornal Horizonte, da Universidade de Lisboa.

Como poeta, em 1950, colabora com o compositor e guitarrista João Bagão, na renovação do fado de Coimbra, tendo o Dr. Paradela de Oliveira gravado dois dos primeiros fados. Fez, também, várias letras para a música do compositor e acordeonista António Mestre, que foram gravadas por Amália Rodrigues.

Encetou a sua actividade literária, publicando o 1º livro, Janela Aberta.

Depois de ingressar no Serviço Meteorológico Nacional, então no seu início, casa com Maria de Lourdes e, com os dois filhos, Ana Maria e João, parte para Santa Maria, nos Açores.

Vai a Londres onde se especializa com o Prof. Dobson na medição do ozono e, de regresso aos Açores, realiza das primeiras medições ozonométricas quando o problema da camada de ozono ainda não era do conhecimento público.

As suas actividades profissionais levam-no a Lourenço Marques (hoje, Maputo), Moçambique, onde exerce as funções de Inspector do Serviço Meteorológico, cargo que o leva a percorrer todo o território. O passo seguinte é Timor, em 1964, onde permanece dois anos e exerce as funções de Chefe do Serviço Meteorológico de Timor

Quando, em 1966, regressa a Portugal, colabora no grupo do Dr. Luís Góis, fazendo letras para vinte e duas canções e publica Natural do Algarve, Guimarães Editores, em 1968. A Universidade do Algarve fez uma 2ª edição, em 1986, prefaciada por David Mourão-Ferreira

A seguir à publicação do conto Como é a Primavera? no livro Primavera, Vol. 1 de Histórias e Canções em Quatro Estações, colecção coordenada por Maria Alberta Menéres, (Edições ASA), publica, em 1989, Ontem à Noite (Lisboa, Livros Horizonte).

A partir de 75, ensaia uma longa série de publicações de livros infanto-juvenis, muitos dos quais ilustrados por Tóssan, e participa na antologia coordenada por Luísa Ducla Soares (Areal Editores).

Nos últimos anos, Leonel Neves continua a escrever poesia e livros infantis: Visita inúmeras escolas, por todo o país, lendo e falando do seus contos, transmitindo a sua mensagem de fraternidade, mas também do imaginário e da utopia. O seu apego a uma sã pedagogia e convívio com as crianças, o seu sentido humanista e as reminiscências da juventude estão sempre presentes, e delas fez o sentido mais profundo da sua vida.

Morre, a 6 de Setembro, em Odeáxere, no concelho de Lagos. É trasladado para Lisboa, para o Cemitério do Alto de S. João, onde o corpo é cremado (como era seu desejo) e as cinzas depositadas no Jardim das Cinzas.

A 20 de Fevereiro, é postumamente lançado em sessão no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria ll, Memória de Timor-Leste (Guimarães, Pedra Formosa, Edições). Foram ditos poemas pela actriz Maria do Céu Guerra e pelo editor, poeta Firmino Mendes. Na mesa estiveram presentes e falaram sobre o autor o Prof. Manuel Gomes Guerreiro (ex-reitor da Universidade do Algarve), o Prof. Ário de Azevedo (ex-reitor da Universidade de Évora), o Prof. Joel Serrão (historiador) e o Dr. José Blanc de Portugal (poeta, musicólogo e meteorologista).

Tinha inéditas as obras: Novas Histórias do Zé Palão e Adivinhas e Contos para Ler na Cama. E em projecto, a obra, Retrato de António Aleixo, para a qual havia reunido bastante documentação e trabalhava no livro de poesia A Cal Cúbica e as Manchas, que agora é editado.

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MINHA HOMENAGEM A LEONEL NEVES

meu grande amigo... e primo

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CAL CÚBICA

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Amigo, indefectível amigo,

amigo dos simples, das hortas, do milho

desabrochando deslumbramentos

a esvoaçar por cima de vales e serras

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já cá andam as andorinhas

que tu desenhavas em palavras

sobrevoando os lugares

de teus olhos transparentes, azuis

olhando antigas casas onde ardiam

os folguedos da tua juventude

a voz serena da simplicidade das coisas chãs

na água fresca correndo no leito antiquíssimo

do rio das tuas memórias.

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Já por cá andam as andorinhas

a desenhar as tuas palavras nos céus

a sobrevoar a cal cúbica das casas meridionais

da tua juventude

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o milho verde das frescas hortas

as serras os montes e os vales

da mesma água antiquíssima do rio

por onde andaste

com a simplicidade dos teus olhos azuis

na frescura de folguedos juvenis

desabrochando deslumbramentos

que apenas ficaram… sabes

nos versos que escreveste.

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Este poema já foi publicado no 1º volume de 5 POETAS DE LAGOS (Liliete Cardeira da Silva, Nídio Duarte, Cristiano Cerol, Pedro Magalhães e eu próprio), ed. do Grupo de Amigos De Lagos.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

HOMENAGEM AOS NATURISTAS

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Acabo de ser gentilmente convidado para o jantar comemorativo do 6º Aniversário do Club Naturista do Algarve, que tem lugar no dia 4 de Julho, no restaurante "O Cangalho", em Lagos. Na impossibilidade de estar presente, quero, no entanto, prestar a minha homenagem ao Grupo, com um poema.

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POEMA AO NATURISMO

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A paisagem dá forma à nudez dos corpos

o equilíbrio natural dos tons harmónicos

na luz morna que desce sobre a terra.

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É a aliança virtuosa entre o ar e a água

o recorte instintivo dos troncos das árvores

expondo as suas folhas e os seus frutos.

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Inédito


Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

TUDO COMO DANTES

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Como dantes

radiantes

esfuziantes

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os elefantes.

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Opíparas

elegantes

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as amantes.

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E os bem falantes

meliantes

traficantes

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como dantes

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quartel general

em Abrantes.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

DESFRUTAR O AR

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Desfruta-o ar.o vento.o fogo.

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Arde devagar.

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Engana a tua sina

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com o teu errar.

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inédito


Sábado, 20 de Junho de 2009

MEU CÉREBRO

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Meu cérebro move-se a dois tempos:

o tempo raso das esperas,

das esferas paradas sobre um vidro

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e o tempo dos éteres, dos vapores

que dão um frenesim à vida

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uma esfera lisa

vítrea

que enrola no meu ser

os mil tempos da face duma roda.


em ARABESCOS, colecção Litoral, 2008, esg

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

POEMA À PLENITUDE

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Para trilhar os caminhos que levam à plenitude

escolhem-se as veredas mais ímpias, sem flores

ou flores gastas pelo faro dos pássaros

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porque a pura ciência dos rios se constrói

por entre as pedras escorregadias, lisas

das margens, não pela geografia das cores

o brilho intransigente das primaveras

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2007

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

SONETO CLÁSSICO

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Subi um dia pela tarde aquele monte
donde as coisas do mundo que habitamos
fazem crer-nos, de longe, que julgamos
ver de perto, ao longe, o horizonte.

Alta serra de luz cegando a fronte,
quando ao ponto mais alto nos chegamos
das coisas desse mundo que avistamos
já não vemos se vemos lago ou fonte.

E do alto da serra contemplei
em plena luz, a luz que iluminava
o aparente sossego que reinava.

Desci depois do ponto onde cheguei,
mas só quando na terra descansei
é que entendi que vista me enganava.
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Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

POSTAIS ILUSTRADOS DE POESIA

postais de poesia #14
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clicar para melhor ler

Domingo, 31 de Maio de 2009

POEMA AO MEU ESPAÇO

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Cerca-me o espaço que não vejo

a curvatura relativista

de meus olhos, o horizonte

que entra a fundo no meu corpo,

a claridade das formas

que se incendeiam.

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O meu espaço foge

aos tensores de Riemanm

alarga-se a alaga-se

num lago próximo.

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Desconhece as leis da física,

permanece à luz

e pertence aos artifícios da luz,

como silhueta duma árvore

respirando a interior volúpia

das águas móveis.

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Terça-feira, 26 de Maio de 2009

TAMBÉM HÁ UMA RUA SEM NOME

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Também há uma rua sem nome, na cidade:

um caminho obscuro, em laje de basalto

cheia de perplexidades e redundâncias,

com um arco-íris num dia sem sol,

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um caule tardio na incerteza dum pátio

ou a cicatriz duma lâmpada no escuro

das casas disformes, desfeitas em barro.

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É uma rua estreita habitada por sombras

de fogos extintos, numa transparência antiga

própria dos répteis que abalaram o planeta.

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Não tem nome nem crisântemos às janelas,

é uma rota obstruída pelas ladeiras do sal

ponto de referência, aliás, da tranquilidade.

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inédito

Sexta-feira, 22 de Maio de 2009

AGRADECIMENTO

Nos últimos tempos, vários poemas meus foram transcritos em blogs de caros confrades da blogosfera.
A todos, o meu reconhecido agradecimento.

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http://flautistaon.blogspot.com

http://wwwmeulampejo.blogspot.com

http://bailandonoar.blogspot.com

multiply@multiply.com *

http://angel-acasos.blogspot.com

http://romasdapaula.blogspot.com

http://edupoisl.blogspot.com

http://lucy-natureza.blogspot.com

http://ealeixo.blogspot.com

http://sedrul.ning.com

http://laurahlua.blogspot.com

http://pequenosnadas2-nelio.blogspot.com

http://ematejoca.blogspot.com **

http://brasilpoesias.ning.com

http://porosidade-eterea.blogspot.com

http://lafinestraperta.blogspot.com

http://escritoaquente.blogspot.com

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-- * por via de Menina Marota

. ** poema traduzido em alemão


Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

POEMA BREVE

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Não sei escrever o que sinto.

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Mas sei sentir

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o que penso.

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Lagos, Maio de 2009

Terça-feira, 12 de Maio de 2009

EU VI A SOMBRA DUM DEUS

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Eu vi a sombra dum deus revolvendo as entranhas da terra,
preparando os magmas com delicada negligência, dispondo
entre as pedras um trilho verde animando a estrutura ágil
da paisagem, num pedaço de tempo ocasional, sem data.
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Ali soprava o enxofre sobre os minerais e os metais da terra,
a litografia do chão, um halo para abrir apetência pelo fogo
em olhos hesitantes, atrás dum palco, antecipando a festa.
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Aqui moldava as seduções de sentir o vento que vem do mar,
manipulando a tentação dos frutos, um sentimento irrequieto
próprio para sublevar o coração duma criança ainda jovem.
is
Mais ao longe, semeara a claridade, incendiando as árvores
com flores de cores desmedidas, aromas inacabados, álcoois,
os animais aliando os barros, o sangue e o sémen, uma cadeia
que tem no topo a esfera prateada duns olhos iguais aos dele.
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Vi como concebeu as artes do carbono, antes de conferir-lhes
o brilho duma espiga, deixando ao olvido uma pedra inerme
onde colocar os nomes das ausências, o seu fulgor perecível,
o deslumbramento de ter estado aqui, ouvindo o rumor do mar.
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Vi o meu próprio destino, um espasmo de luz no coração
dum átomo, substituindo e substituindo-se a outro átomo,
na curva sem sobressaltos dum programa de flores exóticas,
algoritmos, sabores vertiginosos como o vento da paixão,
a imensa serenidade dum castanheiro esgalhado, aos sóis do sul,
a mortificante crença no amor, na inocência violenta da espera.
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Vi a beleza, o número dos números, numa escala de valores
considerada de aspecto redutor no que respeita à ventura fortuita
duns olhos que encontram outros olhos, de mãos que se erguem
pelo mesmo búzio do mar, das rédeas que seguram idêntico eixo
de loucuras, a partilhar sob o tecto o nome das origens e do fogo.
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Vi o desterro da terra pendendo sobre a púrpura intimidade,
sem música que possa animar de novo a luz, a condição plural
de ser alimento de tarefas tranquilas num perfume transitório,
uma borboleta que parte sobre as flores, sem desígnios obscenos,
sem astúcia de transparências, iludindo as cinzas impassíveis.
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Vi a força dos tambores clamando a glória de sonhos decepados
igualmente amantes de orgias apolíneas, alicerces do austero
jogo das sombras sobre sombras que acendem a solidão dos ares,
o oculto âmago das estrelas condenadas ao degredo dos vazios
espaços, ainda ecoando nos olhos as palavras últimas, inumeráveis,
daquele dia último, essa tarde limite, inesquecível de amargura.
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Vi, pois, a solidão da terra, os metais, a solidão do próprio deus
incapaz de imergir na vertigem de olhar os horizontes e chorar
de alegria, pelos reencontros com a plenitude, o alfabeto inteiro
das ocasionais seduções onde se pode ler o teu nome, aprender
como tudo é vago e difuso embora transparente de recordações,
para gravar em exíguas estrelas de um outro universo paralelo.
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Vi como era imperfeita a obra de praticar o tempo e o espaço
das artes perecíveis do carbono, mero brilho de pedras luzidias
dentro dos olhos que se põem em riste à beira dos caminhos,
herdando antigas seduções na descoberta, a vela para um barco
restituído ao sonho atlântico, ao voo das aves desmerecidas
que descobrem o azul das árvores, os frutos entreabertos
prontos a cair sobre as areias, suspensos de luz, cumprindo-se.
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O que eu vi foi apenas a sombra dum deus negligente e árido;
claros indícios duma inútil prática de forjar esmeraldas
nos alicerces duma casa cheia de viagens ao interior dum ermo,
para iludir o inevitável trono gerador de exercícios reprimidos,
ou séculos adiados, desfeitos em sensações de vento e de poeira.
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Não o fazia para nós. Fazia-o para entreter-se com o que via
poder ser feito: porque a eterna utopia é pertença dos homens,
não dos deuses, que a esses está reservada a maior da solidão.
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em "TERRACHÃ", ed AJEA

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

PAISAGEM

Postais ilustrados de poesia
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Este postal foi executado com a técnica do linólio,
por Jorge Norvick.

Como é executado a partir dum só bloco
e é preciso ir sucessivamente escavando para cada cor,
todos os exemplares são ligeiramente diferentes.