Terça-feira, 18 de Junho de 2013

POEMA AO VERÃO


Vem   verão   com pétalas de sol zunindo
a tarde ameaçada pelo incêndio da noite,
súbita de harmonias, rasgada de ocultas aves
ciciando a espuma translúcida dos olhos,
devorada de penumbra!

 .
Vem   verão   coberto de sonhos rente ao rio,
exausto, de vermes apodrecido
sob o hálito fugidio das folhas secas
–  de sol e mistério breve –
num harpejo de searas e semente!

 .
Vem    verão  dócil sonâmbulo abrindo
as entranhas da terra grávida,
de secura e pólen amarela
em crepúsculos voando o inverno
num violino de cigarras! 

Terça-feira, 4 de Junho de 2013

POEMA ÀQUELA NOITE


      (glosando uma imagem ultra-romântica)
  -
Naquele dia que não houve noite
naquele dia em que a noite veio logo a seguir à noite
e passou pelo corpo a lentidão ágil duma nuvem de maio
sobre a tarde,
        dia não o houve,
a noite foi sempre a continuação da noite
sempre a imagem da noite pelo dia fora.
.
Naquele dia que não houve dia
naquele dia em que a noite foi sempre a imagem da noite
e roçou pelo corpo a placidez feroz da luva de maio
sob a tarde,
       noite não a houve,
o dia foi sempre a continuação do dia
sempre a imagem do dia pela noite fora.

Terça-feira, 28 de Maio de 2013

O VENTO

..
O vento não pára.
 .
Nem param as ondulações do tempo,
a assimetria luminosa
das cores.
 .
A vida corre ao sabor destas divagações
da água,
outros sismos da Terra,
a ciência fulgurante do Sol.
 .
Nós
apenas partilhamos o lenho cósmico,
melódico reflexo dos seus acordes
e do acaso.

Sexta-feira, 17 de Maio de 2013

AS JANELAS


Na cidade as janelas já não passam pelas ruas
os olhos desvanecem-se no redil das casas,
como dentes na boca discretos segredos.
 .
E se desfazem dos derradeiros restos
das cores atlânticas, da serenidade instante,
em recantos com vestígios de matéria íntima.
 .
Ausentes os peixes ágeis, como num pântano
asfixiado, uma taça estupefacta, vazia.
 .
Obscuras as raízes que alimentam o silêncio
a transparente mágica dum fraterno abraço.


Quarta-feira, 8 de Maio de 2013

PRAÇA DA MÚSICA DE LAGOS


Esta praça terá sido a mais nobre da cidade. Já foi conhecida por diversos topónimos: Ribeira dos Touros (onde teria estado D. Sebastião aquando da sua visita, em 1573), Praça do Pelourinho, do Município e da Constituição, durante a Monarquia. Posteriormente, da República e, agora, do Infante D. Henrique. Mas, para os lacobrigenses, será sempre a Praça da Música. E isto porque, primeiro, os regimentos militares aqui aquartelados tinham banda própria, dando excelentes concertos à quinta-feira e ao domingo e, mais tarde, a lacobrigense Filarmónica 1º de Maio, utilizando o coreto (lamentavelmente destruído, em 1960). A nobreza da praça devia-se, não só à sua área, ao pavimento em calçada portuguesa, ao seu coreto e ao enquadramento de belos edifícios: igreja de Santa Maria, Casão Militar, Secretaria/hospital Militar e, para maior beleza, do lado nascente, a foz do rio, a Meia Praia e a Baía.
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* em Lagos Ontem - Notas Históricas e Toponímicas,  de José Paula Borba