A Universidade do Algarve, em Faro, homenageou o poeta algarvio Leonel Neves, no dia 10 de Julho.
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Leonel Neves nasceu em Faro, em 1921, onde fez a Escola Primária, mas as suas raízes levavam-no sempre para o Barlavento (Casalta, na serra, e Vale da Lama, junto ao mar, em Odeáxere, Lagos), durante as férias.
A continuação dos estudos foi em Lisboa, para cursar Matemática na Faculdade de Ciências e formar-se em Engenheiro Geógrafo. Durante este período, juntamente com Ário de Azevedo, Joel Serrão, Rui Grássio, pertence à redacção do jornal Horizonte, da Universidade de Lisboa.
Como poeta, em 1950, colabora com o compositor e guitarrista João Bagão, na renovação do fado de Coimbra, tendo o Dr. Paradela de Oliveira gravado dois dos primeiros fados. Fez, também, várias letras para a música do compositor e acordeonista António Mestre, que foram gravadas por Amália Rodrigues.
Encetou a sua actividade literária, publicando o 1º livro, Janela Aberta.
Depois de ingressar no Serviço Meteorológico Nacional, então no seu início, casa com Maria de Lourdes e, com os dois filhos, Ana Maria e João, parte para Santa Maria, nos Açores.
Vai a Londres onde se especializa com o Prof. Dobson na medição do ozono e, de regresso aos Açores, realiza das primeiras medições ozonométricas quando o problema da camada de ozono ainda não era do conhecimento público.
As suas actividades profissionais levam-no a Lourenço Marques (hoje, Maputo), Moçambique, onde exerce as funções de Inspector do Serviço Meteorológico, cargo que o leva a percorrer todo o território. O passo seguinte é Timor, em 1964, onde permanece dois anos e exerce as funções de Chefe do Serviço Meteorológico de Timor
Quando, em 1966, regressa a Portugal, colabora no grupo do Dr. Luís Góis, fazendo letras para vinte e duas canções e publica Natural do Algarve, Guimarães Editores, em 1968. A Universidade do Algarve fez uma 2ª edição, em 1986, prefaciada por David Mourão-Ferreira
A seguir à publicação do conto Como é a Primavera? nolivro Primavera, Vol. 1 de Histórias e Canções em Quatro Estações, colecção coordenada por Maria Alberta Menéres, (Edições ASA), publica, em 1989, Ontem à Noite (Lisboa, Livros Horizonte).
A partir de 75, ensaia uma longa série de publicações de livros infanto-juvenis, muitos dos quais ilustrados por Tóssan, e participa na antologia coordenada por Luísa Ducla Soares (Areal Editores).
Nos últimos anos, Leonel Neves continua a escrever poesia e livros infantis: Visita inúmeras escolas, por todo o país, lendo e falando do seus contos, transmitindo a sua mensagem de fraternidade, mas também do imaginário e da utopia. O seu apego a uma sã pedagogia e convívio com as crianças, o seu sentido humanista e as reminiscências da juventude estão sempre presentes, e delas fez o sentido mais profundo da sua vida.
Morre, a 6 de Setembro, em Odeáxere, no concelho de Lagos. É trasladado para Lisboa, para o Cemitério do Alto de S. João, onde o corpo é cremado (como era seu desejo) e as cinzas depositadas no Jardim das Cinzas.
A 20 de Fevereiro, é postumamente lançado em sessão no Salão Nobre do Teatro Nacional D. Maria ll, Memória de Timor-Leste (Guimarães, Pedra Formosa, Edições). Foram ditos poemas pela actriz Maria do Céu Guerra e pelo editor, poeta Firmino Mendes. Na mesa estiveram presentes e falaram sobre o autor o Prof. Manuel Gomes Guerreiro (ex-reitor da Universidade do Algarve), o Prof. Ário de Azevedo (ex-reitor da Universidade de Évora), o Prof. Joel Serrão (historiador) e o Dr. José Blanc de Portugal (poeta, musicólogo e meteorologista).
Tinha inéditas as obras: Novas Histórias do Zé Palão e Adivinhas e Contos para Ler na Cama. E em projecto, a obra, Retrato de António Aleixo, para a qual havia reunido bastante documentação e trabalhava no livro de poesia A Cal Cúbica e as Manchas, que agora é editado.
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MINHA HOMENAGEM A LEONEL NEVES
meu grande amigo... e primo
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CAL CÚBICA
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Amigo, indefectível amigo,
amigo dos simples, das hortas, do milho
desabrochando deslumbramentos
a esvoaçar por cima de vales e serras
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já cá andam as andorinhas
que tu desenhavas em palavras
sobrevoando os lugares
de teus olhos transparentes, azuis
olhando antigas casas onde ardiam
os folguedos da tua juventude
a voz serena da simplicidade das coisas chãs
na água fresca correndo no leito antiquíssimo
do rio das tuas memórias.
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Já por cá andam as andorinhas
a desenhar as tuas palavras nos céus
a sobrevoar a cal cúbica das casas meridionais
da tua juventude
.
o milho verde das frescas hortas
as serras os montes e os vales
da mesma água antiquíssima do rio
por onde andaste
com a simplicidade dos teus olhos azuis
na frescura de folguedos juvenis
desabrochando deslumbramentos
que apenas ficaram… sabes
nos versos que escreveste.
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Este poema já foi publicado no 1º volume de 5 POETAS DE LAGOS (Liliete Cardeira da Silva, Nídio Duarte, Cristiano Cerol, Pedro Magalhães e eu próprio), ed. do Grupo de Amigos De Lagos.
Acabo de ser gentilmente convidado para o jantar comemorativo do 6º Aniversário do Club Naturista do Algarve, que tem lugar no dia 4 de Julho, no restaurante "O Cangalho", em Lagos. Na impossibilidade de estar presente, quero, no entanto, prestar a minha homenagem ao Grupo, com um poema.
. Subi um dia pela tarde aquele monte donde as coisas do mundo que habitamos fazem crer-nos, de longe, que julgamos ver de perto, ao longe, o horizonte.
Alta serra de luz cegando a fronte, quando ao ponto mais alto nos chegamos das coisas desse mundo que avistamos já não vemos se vemos lago ou fonte.
E do alto da serra contemplei em plena luz, a luz que iluminava o aparente sossego que reinava.
Desci depois do ponto onde cheguei, mas só quando na terra descansei é que entendi que vista me enganava. .
- Eu vi a sombra dum deus revolvendo as entranhas da terra, preparando os magmas com delicada negligência, dispondo entre as pedras um trilho verde animando a estrutura ágil da paisagem, num pedaço de tempo ocasional, sem data. . Ali soprava o enxofre sobre os minerais e os metais da terra, a litografia do chão, um halo para abrir apetência pelo fogo em olhos hesitantes, atrás dum palco, antecipando a festa. . Aqui moldava as seduções de sentir o vento que vem do mar, manipulando a tentação dos frutos, um sentimento irrequieto próprio para sublevar o coração duma criança ainda jovem. is Mais ao longe, semeara a claridade, incendiando as árvores com flores de cores desmedidas, aromas inacabados, álcoois, os animais aliando os barros, o sangue e o sémen, uma cadeia que tem no topo a esfera prateada duns olhos iguais aos dele. . Vi como concebeu as artes do carbono, antes de conferir-lhes o brilho duma espiga, deixando ao olvido uma pedra inerme onde colocar os nomes das ausências, o seu fulgor perecível, o deslumbramento de ter estado aqui, ouvindo o rumor do mar. . Vi o meu próprio destino, um espasmo de luz no coração dum átomo, substituindo e substituindo-se a outro átomo, na curva sem sobressaltos dum programa de flores exóticas, algoritmos, sabores vertiginosos como o vento da paixão, a imensa serenidade dum castanheiro esgalhado, aos sóis do sul, a mortificante crença no amor, na inocência violenta da espera. . Vi a beleza, o número dos números, numa escala de valores considerada de aspecto redutor no que respeita à ventura fortuita duns olhos que encontram outros olhos, de mãos que se erguem pelo mesmo búzio do mar, das rédeas que seguram idêntico eixo de loucuras, a partilhar sob o tecto o nome das origens e do fogo. . Vi o desterro da terra pendendo sobre a púrpura intimidade, sem música que possa animar de novo a luz, a condição plural de ser alimento de tarefas tranquilas num perfume transitório, uma borboleta que parte sobre as flores, sem desígnios obscenos, sem astúcia de transparências, iludindo as cinzas impassíveis. . Vi a força dos tambores clamando a glória de sonhos decepados igualmente amantes de orgias apolíneas, alicerces do austero jogo das sombras sobre sombras que acendem a solidão dos ares, o oculto âmago das estrelas condenadas ao degredo dos vazios espaços, ainda ecoando nos olhos as palavras últimas, inumeráveis, daquele dia último, essa tarde limite, inesquecível de amargura. . Vi, pois, a solidão da terra, os metais, a solidão do próprio deus incapaz de imergir na vertigem de olhar os horizontes e chorar de alegria, pelos reencontros com a plenitude, o alfabeto inteiro das ocasionais seduções onde se pode ler o teu nome, aprender como tudo é vago e difuso embora transparente de recordações, para gravar em exíguas estrelas de um outro universo paralelo. . Vi como era imperfeita a obra de praticar o tempo e o espaço das artes perecíveis do carbono, mero brilho de pedras luzidias dentro dos olhos que se põem em riste à beira dos caminhos, herdando antigas seduções na descoberta, a vela para um barco restituído ao sonho atlântico, ao voo das aves desmerecidas que descobrem o azul das árvores, os frutos entreabertos prontos a cair sobre as areias, suspensos de luz, cumprindo-se. . O que eu vi foi apenas a sombra dum deus negligente e árido; claros indícios duma inútil prática de forjar esmeraldas nos alicerces duma casa cheia de viagens ao interior dum ermo, para iludir o inevitável trono gerador de exercícios reprimidos, ou séculos adiados, desfeitos em sensações de vento e de poeira. . Não o fazia para nós. Fazia-o para entreter-se com o que via poder ser feito: porque a eterna utopia é pertença dos homens, não dos deuses, que a esses está reservada a maior da solidão. . em "TERRACHÃ", ed AJEA
Este postal foi executado com a técnica do linólio, por Jorge Norvick. Como é executado a partir dum só bloco e é preciso ir sucessivamente escavando para cada cor, todos os exemplares são ligeiramente diferentes.