sábado, 30 de janeiro de 2016

DIAS TRANSPARENTES


Nestes dias de transparências violentadas
sonho a ardência duma árvore estóica
testemunhando os ludíbrios da paisagem,
um rio que simplesmente prossegue
e se disfarça em devaneios de águas claras
no rigor dos invernos que conhece.

Subo do meu frio por escadas verticais,
um perfil amargurado de vozes interiores
que me trazem às franjas da realidade,
os alicerces da essência dos objectos,
onde apenas vislumbro os excessos da luz
as cinzas ou o fogo de vulcões extintos.

Contemplo, nas fronteiras do alvoroço,
os murmúrios de antigos violoncelos
sussurrando o desígnio das águas leves
fustigando o granito das profundas fendas
da terra, num exercício demolidor. 

Mas nada sei dos exercícios de barro,
apenas reconheço o ar circundante
que prossegue dando frescura às vigílias,
na lassitude serena de entender a bruma
a descer sobre a superfície das origens.

Por isso apenas me atenho às evidências
do pólen esvoaçando ao sabor do vento,
a pura sedução das vertentes da luz
o mecanismo rigoroso dum grão de trigo.

in "Transparências", 1999

21 comentários:

Elisabete disse...

Uma escrita maravilhosa, poeta!
Bom fim de semana

Crocheteando...momentos! disse...

Um poeta e todo o esplendor da sua poesia!
Dúvidas que valorizam este poema.
Bom fim de semana

Crocheteando...momentos! disse...

Um poeta e todo o esplendor da sua poesia!
Dúvidas que valorizam este poema.
Bom fim de semana

helia disse...

Uma bonita Poesia !

tulipa disse...

Olá Poeta

Por aqui, encontro uma bela poesia!
Gostei:
Contemplo, nas fronteiras do alvoroço,
os murmúrios de antigos violoncelos
sussurrando o desígnio das águas leves

Parabéns!

vou tentando vir visitar os blogues dos amigos, aos sábados
mas, nem todas as semanas consigo
...
cá estou hoje.

Nas minhas contas (caso não me engane) blogues são 6...
neste momento estão 3 activos

o filhote mais novo "Ano Sabático" faz no próximo dia 3 de fevereiro, 2 anos

Ah, pois é!!!
O tempo voa.

Sou lágrimas, solidão e dor,
mas também vou ainda conseguindo ser alegria, energia e força.

Obrigado pela visita

AH, caso queira espreitar,
tenho um post novo no meu blog
http://momentos-perfeitos.blogspot.pt/

Bom fim de semana.
Beijinhos

ॐ Shirley ॐ disse...

Sonhar e voar é preciso...
Muito bonito, AC!
Beijo!

Rafeiro Perfumado disse...

Aproxima-se o tempo de comprar Aerius... Abraço!

luisa disse...

Gosto dos dias transparentes. Desses que deixam passar a luz e tornam tudo mais claro e percetível. Serão esses dias, por vezes, enganadores? Então, paciência, deixo-me enganar. :)

Lourisvaldo Santana disse...

Palavras bonitas, significativas! A poesia tem esse poder de nos tocar a alma.

Visitei o seu blog de astronomia e gostei de suas postagens. É minha paixão também.

Grande abraço!

Simone Felic disse...

Linda poesia Vieira, um ótimo entrosamento entre
natureza e palavras peticas.

Abraço.

http://eueminhasplantinhas.blogspot.com.br/

Arione Torres disse...

Oi querida amiga, vim lhe desejar uma excelente semana, beijos e fique com Deus!!

Existe Sempre Um Lugar disse...

Boa tarde, linda poesia e transparente num voo de liberdade.
AG

Maria Rodrigues disse...

Seria bom se em tudo houvesse transparência.
Magnifico poema.
Um abraço
Maria

Fátima Oliveira disse...

linda poesia! Gostei muito.
Abraços e um feliz fim de semana e ferido de carnaval.

Tais Luso disse...

Para que fiquemos sempre atentos, não podemos esquecer que sem as vigílias estaremos sujeitos a enganos.
Abraços, poeta!

Pedro Luso disse...

Em algum lugar, por mais remoto que seja, haverá de tocar um violoncelo para despertar as pessoas, com a sobriedade de seu som choroso.
Um bom domingo.
Um abraço.

CÉU disse...

Olá, Vieira Calado!

Que poema! Que frases tão bem colocadas! Escreve com muita certeza, ortográfica, morfológica, sintática e não só.
O que escreve não é, de todo, fácil de entender e sabe disso decerto. Os menos cultos, academicamente, terão algumas dificuldades em entender o que escreveu, penso eu.

Bem, estes seus dias a que chama transparentes, não sei se serão assim tão transparentes, até pke há focos de temporal, nem que seja sensorial por aí.
Que os rios continuem o seu percurso, que os violoncelos continuem tocando músicas de encantar, o que é certo é que das coisas do barro, da terra, nada sabe e não as consegue moldar, por isso vê aquilo que lhe é permitido ver, enquanto descansa na sedução da luz do dia ou da noite, como se grão de trigo fosse. Os poetas têm tendência para se "aniquilarem" ou "insubordinarem".

Boa semana e excelente carnaval, aí pelos Al Garbs.

Abraços.

Cristina Sousa disse...

Magnifico poema! Amei.

Um beijo

bettips disse...

Encontrar quem "se encontrou" nestas lides há tanto tempo é sinal de resistência. Obrigada pelas palavras, as deixadas no blog e estas, sempre vivas, palpitando como a terra, o mal, o sol, o vento, aí ao sul! Abç

bettips disse...

...diria o MAR e não o mal, claro!

Ana Freire disse...

Magnifico poema!...
Adorei esta clareza, transparência, e luminosidade... na forma de palavras!...
Abraço!
Ana