Quinta-feira, 7 de Outubro de 2010

SONETO CLÁSSICO


sonetos #3
 .
Boiando sobre as águas inquietas
do lago macilento e oleoso,
vai ficando, parado e duvidoso,
o barco das viagens incompletas.
 .
E a Lua, dos amantes e poetas,
reflecte a vela branca do formoso
batel, no lago espelho tenebroso,
como ideais desfeitos de profetas.
 .
E as sombras errantes dos salgueiros
pintam fantasmas negros e medonhos,
no batel de esperanças e de sonhos.
 .
E o poeta e eu, os marinheiros,
escondem-se nas sombras do luar
e abraçam-se e beijam-se a chorar.
em "37 Poemas", 1961, esg 

Sábado, 2 de Outubro de 2010

POEMA AO PÓ

  .
A redescoberta que é ver o pó, cheirar o pó,
cheirar a pó. É um rumor inerte, um retrato
tangível de outras memórias perfurantes,
um vazio entre azuis e baços no chão da terra
gritando segredos abatidos ao silêncio ileso.
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Praticar a ciência do pó é viajar pelos gelos
da montanha, um texto insondável de signos
sobre a água, reminiscência doutras águas
de apenas a cognição nua, virgem, das fontes
.
é desvendar a erosão, o murmúrio de colunas
gregas, efémeras, a inocente exaltação das aves
assim que o sol reacende a festa inadiável

-
e contemplar uma indústria sem nome e sem data,
sem prólogo, divina, puríssima, demoníaca.

 .
em "Terrachã", ed. AJEA
 
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