Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

POEMA AO MAR

...Domingo, 11 de Abril
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Porque todo o texto literário tem a sua história, veio-me à ideia, revelar as razões que levaram à escrita do poema, desta postagem.

O facto poético que inspirou o texto, é dos domínios do reconto oral.

A estória é simples:

um velho almirante, de visita à cidade, pediu a um amigo para o levar ao Cabo de S. Vicente.

Aí chegados, com o esboço dum sorriso a bailar-lhe nos olhos durante uns instantes, o almirante olhou em silêncio a imensidade daquele mar redondo, e depois disse em voz contida e embargada:

– João... é a última vez que vejo este cão!...

Voltaram para Lagos e pouco depois, o velho lobo do mar morria.

.
* * *
...
Olhava pela última vez o mar
porque ontem é a abstracção da ambiguidade
e a última vez já é hoje
no vácuo de ontem, sem sofisma ou bruma.
.
Olhava-o e sorria
não fora ele ainda uma criança
sem medos, sem o drama
de olhar o mar pela última vez.
.
Aí nascera
sabia-o há milhões de anos
depois do colapso dos dias

.,
como o vento das searas
e a nuvem que esbate o céu

.
na onda que dissolve as noções de tempo
nos silêncios, na bruma da claridade

.
a abstracção de ontem
a última vez a ver o mar

em seu silêncio
.
o colapso do tempo
já hoje.

inédito

Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

AROMA VIRGINAL


. -
Abraçar o acto no seu corpo, no seu leito,
soprar-lhe a leveza rosa dum aroma,
enquanto dorme em sonhos a substância desta vida
noutras vidas, ou noutros mundos de outras vidas.
.
Refazer a doçura tranquila das manhãs
interiores, o fio de luz que dá voz ao dia
por onde se estende o legítimo anseio das aves
,
e em gestos de outros rostos esbatidos
e uma pequena imagem de lembranças,
regressar à mágica simplicidade das origens,
a pureza chã, rústica, do aroma virginal.

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Publicado em TRANSPARÊNCIAS, Ed. AJEA