segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Lagos - Rua Direita

Rua Direita da minha infância, centro do mundo,
avenida de todos os universos da minha vida!

Ó rua da minha ingénua idade, da ingenuidade
da infância da minha vida, ó rua centro do mundo!

Rua demais estreita, para o meu ser vagabundo,
neste caminho incerto, para um beco sem fundo!


O vídeo pode ser visto AQUI

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

DO TEU CORPO ENGENDRARÁS


Do teu corpo engendrarás um edifício
de palavras,
a palavra que quiseres ser um fruto fraternal.

O ministério da saliva fará o que fazem as mãos
ao oferecer uma flor

para que a palavra seja o fermento
de outras flores e seus frutos
para oferecer

a outras mãos que passam.

em "Os Múltiplos Lábios da Página", a publicar

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

A INTENSIDADE DAS COISAS

.
A intensidade das coisas
define-se no espaço,
o seu perfil intransigente
habitado pelos ângulos da luz.

Nada se afasta do seu interior acto de destruição,
a fenda do nevoeiro envolvendo
o halo dos rios, numa ideia que passa.

As coisas são o espectro próprio das coisas,
o seu movimento fortuito, uma voz lenta
descrevendo os cinzentos, a cor negra
das ausências, como um canto extinto.

Apenas permanece, no decurso aberto
que habita as lembranças, uma intensidade
idêntica ao exercício rigoroso das palavras.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

OS TRABALHOS DA LUZ


Os trabalhos da luz
explicam as sombras da luz.
.
Disfarçam o seu ardor íntimo
articulado em saberes próprios
da ausência da luz.

E somos nós os destinatários
os eruditos
em suas mistificações

para encobrir a evidência
do eterno retorno dos séculos
e de outras criaturas
também ciosas de luz.


E agora veja os "trabalhos da luz", 
na praia do mesmo nome, no concelho de Lagos  aqui

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

POEMA AO MEU COMPUTADOR


Pode apreciar o vídeo correspondente AQUI

Oh, meu bento computador, 
quanto me trazes em repouso e equilíbrio
com a destreza das tuas funções automáticas
a tua precisa formatação do espaço e seus limites,
a correcção ortográfica das minhas falhas. 

Quanto sustentas a minha serenidade
quando corro os dedos pelos teus sentidos,
substituindo o quartzo já gasto da minha memória
pela eficácia dos teus atributos,
pelo tacto dos teus arranjos algébricos
para os ecos da palavra
e do suor das cinzas dos meus versos!

Meu bento computador
quanto bendigo os teus gestos de luz e sombra
e o leque das tuas opções adequadas, 
nas cores que imprimes no écran dos meus olhos,
na harmonia com que reescreves o acervo
das mil loucuras que trago debaixo das veias,
ou no exercício tecnológico da sintaxe
que estendes pelas páginas já abertas.

Tens o dom de inserir estilos de impressão
nos meus devaneios léxicos, prosaicos
suaves como águas que se enxugam nas areias do chão,
silêncios que arquivo no teu sistema de ficheiros
invioláveis, por meu capricho e teu zelo sereno
na minha vontade e meus caprichos perecíveis.

És a continuação da obra
feita formosura no espaço da página
e nunca me desvias do caminho aberto
com que dou suporte à arquitectura irregular
dum círculo de palavras
ou um ciclo de sons,
onde inscrevo as minhas dores irreveladas
que ciosamente escondes de olhos estrangeiros,
só acessíveis a quem saiba a palavra-
-passe 
da morte adiada programada 
da minha vida.