sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O PERFIL DUMA VELHA ÁRVORE

O perfil duma velha árvore enche-nos de alegria.

A sua sombra traz-nos a presença tranquila da terra,
a forma da própria Terra, a sua frescura fraterna.

É uma pátria renovada de palavras anunciadas, lidas 
nas vozes do rio, nas rotas do sol transbordante;

ela restitui os desvelos relembrados desde infância,   
a cândida explicação dos perfumes pronunciados
noutros tempos imateriais, mágicos de plenitude;

traz a serenidade neutra, a harmonia dos outonos
na imagem dum rebanho que regressa pela tarde,
nas chuvas temporãs próprias do cheiro do barro -
a secular legítima ideia dum tecto restaurado;

organiza os enxames, une os sons do ar instável,
esvanece o orvalho vagaroso deslizante do corpo. 

O colo duma velha árvore é o sonho duma criança 
perpetuando a redobrada paz, e acende na água
rumorejante da fontes, a sedução dos pássaros.

em "Terrachã", ed. AJEA, 2004

domingo, 22 de janeiro de 2017

O CORAÇÃO CONHECE O SEGREDO


O coração conhece o segredo dos pássaros,
a ânsia de horizontes para além do horizonte.

O segredo dos pássaros é uma centelha
de luz rebuscando a simplicidade duma vida

imagens móveis que alargam o nosso chão,
apenas em memórias difusas de exiguidade
e fantasmas de veludo passando mãos inertes
sobre o nosso rosto. 

Ou labaredas azuis duma tarde quente
e o fio dum arco-íris
em suas cores de transparência e frio.

O coração conhece o segredo dos pássaros
e o seu degredo.

E eu apenas recomeço os trabalhos 
da simplicidade da minha vida
e reconheço a sua exiguidade
guiada por horizontes de bruma.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Afonso Henriques, eu


Afonso Henriques eu, de espada de madeira
eu
de espada em punho a vida inteira.

Criei a eternidade do meu mundo
no universo
abri impérios e epopeias desde o berço
arrisquei mitos e quimeras para vencer
corri santos e deuses e sinais
e onde havia perigos a temer
foi onde aventurei e cresci mais. 

Afonso Henriques, eu, a vida inteira 
eu
empunhando uma espada de madeira!

Veja o vídeo AQUI  c/ música de Mozart

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

TU

Negros  são  os teus cabelos loiros
amarelos também teus olhos cinza,
de negro tingirei minha alma azul.

E se gosto tanto dos teus olhos
o verde intenso de teus seios
o rosa velho dos teus lábios
e me fica tão bem a alma azul

é porque demais gosto
dos tons variados do arco-íris.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Os Trabalhos do Tempo

(poemeto)

O tempo mastiga-nos os ossos
e depois a respiração.

Atira-nos à cara o medo dos poços
e desenvolve a equação
da ideia circular

do pó.