terça-feira, 21 de junho de 2016

BÚZIOS



Um menino trazia um fio de búzios

na concha da minha mão.



Era criança

mais jovem do que eu julgava

ou imaginava ser

ou ver

no azul profundo os tons ocre e sépia

da falésia

que caía sobre o mar.



Era o tempo das nêsperas e das amoras

que ainda brilham

nos meus olhos.



Mas era já o tempo das ondas lavrando

a areia, gaivotas estridentes

clamando contra o vendaval.



E o menino nada sabia do vento áspero

da montanha

nem da rigorosa fixidez

do pão do condenado.



Ah, o menino

era apenas uma criança ainda jovem

que procurava búzios na praia

junto ao mar

no azul profundo do céu

que imaginava

na cor das nêsperas e das amoras

que ainda hoje animam

os meus olhos

e o próprio mar!...

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A CASA ANTIGA



Estas paredes preservam o modelo antigo
das casas
o método tradicional do corpo instituído
por analogia às árvores                                                                                                     

um envelope para guardar a seiva
a estrutura íntima das flores
em sua esfinge impenetrável.

Têm as raízes na terra
como as memórias dum rio,
uma transparência donde se vê o fundo
a sombra célere enigmática das margens

Mantêm a dignidade vertical dum lírio
como um poço de vertigens, uma faísca
que perdura

e a mesma janela antiga descerrada,
uma onda transviada em mera dispersão da luz,
como o fazem os fogos da paixão
que se derramam pelas bermas dos caminhos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

PEDRA DA PROMISSÃO


Novo e novo e sempre igual
o dia de amanhã
tece fantasmas no écran.

Pode chover dias e dias a fio
como as folhas no Outono,
pode sentir-se o frio das palavras sólidas
como a única certeza do condenado,
podem mesmo aparecer sinais no céu
a dizer que não há nada,
que o poeta
atento e absorvido
sonha sonhos impossíveis de sonhar

e espera pelo dia prometido.