domingo, 28 de fevereiro de 2016

Cidade anónima


Chego a esta cidade
despido de emoções
as mãos vazias
o olhar vago, sem referências.

Trago apenas uma pequena auréola de luz
a enfeitar o meu cabelo
pela desobediência aos ritmos
os cinzentos que leio nos ares.

Corpos estranhos desenham-se
na nudez das minhas veias
como o silêncio das águas
dum lago a rasar o azul

É tarde para situar-me
na amálgama das ruas

Só me resta uma nesga de sol
antes da noite que soa.


 inédito

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

AS COISAS

Olho demoradamente as coisas
que me rodeiam.

Elas aí estão, paradas, em seu esplendor
de existir
no seu tempo de lugar absoluto.

Mas apenas consomem o tempo,
o meu questionar
no seu esplendor parado,
como um poema escrito
e nunca verdadeiramente entendido.

inédito

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

CELEBRAR A TERRA

Celebrar a terra que acende os horizontes, a persistente luz
das estrelas, e me ensina a alegria chã das aves diligentes,
a metamorfose dos insectos sobrevoando os vales do tempo.

Como não hei de venerar a ostentação dos seus véus brancos
quando caminham longe, permitido o logro, os festejos do sol,
alheios à nudez dos ares, a mão que ateou a viuvez do tempo?

Celebrar os jogos lascivos do vento abrasando vultos voláteis
de árvores despidas, esculpidas na nitidez das tardes paradas,
ignorantes de que nas cinzas é possível ler o poder das cinzas,
a comovente singularidade de serenos crepúsculos, quando
já outros partiram rumo ao apaziguamento, num barco de luz
livre, escrevendo o seu nome numa flor de lótus, à beira Nilo.

E por fim celebrar as vestes heróicas, a cada manhã revelada,
do modesto ofício duma flor enfeitiçada sobre o rio que passa,
dum pássaro madrugador iludindo o enigma plural da noite.

Festejar a sua inocência, o incêndio imperfeito das sombras
que rasam os seus destinos, numa desordem programada,
para que prossiga o festim vagaroso, prosaico, das estrelas.


 em "TERRACHÃ", ed. AJEA, 2004