sexta-feira, 29 de maio de 2015

A CINZA DA TARDE


A cinza da tarde é uma subtileza da luz
e do seu destino de fulgência breve;
o engenho das cores numa ilusão de cinzas
para o dia fugidio, para os seus esteios.

Esconde-se e esconde os seus trâmites,
o seu trânsito das palavras ditas,
um rosário de sons pronunciados
por lábios antigos, eruditos em fábulas,
mistérios de imaginar os seus termos.

Penetra os olhos ágeis, simula o frio do ar,
a predestinação para a bruma dos ocasos,
dissimula a hábil vocação das flores
para o caminho da noite, sem ardis.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

NAQUELE TEMPO



No tempo em que as crianças aprendiam a desenhar
um jarro de água em cima da mesa,
uma árvore rodeada de promessas
num carrinho em madeira feito com as próprias mãos
para conquistar a distância e as manhãs

nesse tempo
havia uma grande luminosidade nos ares
uma ânsia encoberto no coração dum pássaro.

A noite que se via no olhar do caminheiro
era uma seta apontada ao destino
e o destino era um mundo de espigas loiras
de trigo plantadas na cidade
das grandes luzes para afugentar a noite.

Nesse tempo havia uma palavra nunca dita
para dar corpo à raiz dos corações:

o caminheiro haveria de ter uma árvore
desenhada por uma criança
enfeitada de palavras
e de espigas
numa rua anónima da cidade.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

POEMA EM MAIO


Com seus tambores de fogo e cinza
o mel da manhã menino
de luz e sombra ‒

rosto lesto rosto
de alísio ágil cio.

O mês em que nasci.

A bruma e o sol.

O sul nascente.

O mar.